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FABRIZIO JACINTO LARA

fabrizio.lara@gmail.com

A CASA VERMELHA




Quando meu pai anunciou nossa mudança para aquela casa, foi como ganhar um presente impossível, uma bicicleta, um carro a motor, um jogo de camisas de futebol para o nosso time da rua. Mas era apenas a notícia de que nos mudaríamos para a casa vermelha da esquina. Aquela casa de madeira, enorme como um castelo, com um quintal e um galinheiro aos fundos, lugar ideal para a construção do nosso campinho com arquibancadas de madeira. E eu me apressei em levar a boa nova para a turma.

O entusiasmo foi geral. Descemos a rua e fomos fazer o reconhecimento da nova sede do clube. Na verdade, seria a primeira sede. A turma do Manilhão tinha seu próprio campinho. Traves, redes e tudo mais. Mas não tinham arquibancadas. 

A casa, no finalzinho da avenida, estava desocupada havia muitos anos, era o que diziam na vizinhança. Eu passava em frente, na volta da escola, e pensava que fosse um castelo com uma torre no centro, cercada por um jardim e muitas árvores. Era vermelha, construída em madeira, como a maioria das casas do bairro.

Montamos guarda em frente, planejando cada detalhe. Aos fundos do quintal havia um galinheiro. Como meu pai não era dado a criar galinhas, decidimos que ali seria a sede do clube. A frente da casa tornou-se o nosso quartel general. Depois da aula, todos corriam para lá, com planos e anotações.

- Quando você vai se mudar?

- Não sei ainda! Meu pai está providenciando. 

Uma semana se passou. Eu observava meus pais, esperando sinais de que a mudança já estava próxima. Enquanto isso, o projeto do campo com suas arquibancadas não saía do pensamento. À noite, enquanto todos dormiam, eu sonhava acordado, imaginando os nossos jogos contra a turma do Manilhão. Jogos de ida e de volta, jogaríamos na casa do adversário e teríamos a revanche, em nosso próprio campo, com a nossa torcida.

Mais uma semana, e meu pai não tocou mais no assunto. Tive medo de perguntar. E a turma muito ansiosa:

- E aí... quando vai mudar?

- Acho que no mês que vem... Meu pai tá resolvendo alguns problemas...”.

E corríamos nos reunir em frente à casa. O João Lucas fez uma maquete de papelão. Ficou ótima! Todos davam opinião. Discutíamos se o galinheiro seria mesmo a sede ou se poderia ser o vestiário, para onde iríamos no intervalo debater o esquema tático e as estratégias de jogo. Pedrinho, o presidente do clube (eu era o vice) decretou que seria as duas coisas. Além de sede e de vestiário ali ficariam as bolas e os uniformes. “E as taças...”, gritou Pipoca, seguido de um ehhhh! geral.

O time do Manilhão ficou sabendo do nosso plano de construir uma arquibancada e se apressaram. Com a ajuda do pai do Juca, que era marceneiro, fizeram a deles. Para o jogo de inauguração, chamaram a turma do Boqueirão. João Lucas guardou a sua maquete. Os meninos já não perguntavam sobre a casa e pararam de falar sobre o campo, pois começava a temporada de pipas.

Numa noite, após o jantar, finalmente meu pai nos reuniu e anunciou que nos mudaríamos, mas para outro bairro, um conjunto residencial de casas populares. Nos dias que se seguiram, antes da mudança, não tive coragem de sair à rua, nem fui à escola.

           O caminhão da mudança passou em frente à casa. Dei uma última olhada. Era alta, como um castelo vermelho desaparecendo entre as árvores. Não pude ver o galinheiro, que seria nossa sede, e nem o quintal, onde construiríamos nosso campinho com arquibancada de madeira.